São Paulo, 24 de junho de 2010
O fato
No dia 18 de maio, o deputado federal Moreira Mendes (PPS-RO) declarou na tribuna da Câmara
Federal que, com base em informações sigilosas, um grupo composto por índios Caxararis, garimpeiros,
comunidades dos distritos de Nova Mutum e Extrema, sob a coordenação do MAB, estaria preparando uma
invasão ao canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Jirau para o dia 21 de maio e planejando ataques e
atos que colocariam em risco os operários. Segundo o discurso do deputado, o grupo “é encabeçado pelo
chamado Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) - já teria até mapeado os pontos estratégicos da
obra, como o paiol de explosivos utilizados para dinamitar as rochas, a planta de combustível e as centrais de
refrigeração (onde é armazenada a amônia), o que demonstra que se trata de uma ação planejada, arquitetada
nos mínimos detalhes, a fim de produzir o maior impacto possível”.
Poucos dias antes do discurso do deputado Moreira Mendes, alguns meios de comunicação da região
denunciaram a presença de um ex-coronel do exército em Porto Velho. Segundo a imprensa, o ex-coronel
chama-se “Gélio Fregapani, está residindo em Porto Velho há cerca de 6 meses e se apresenta entre a
população de Jacy-Paraná e Mutum-Paraná como escritor, garimpeiro e até como cantor. Participa de todas
as audiências públicas, esteve em reuniões da CPI das Usinas, promovida pela Assembléia Legislativa
e fez dossiês sobre cada liderança contrária às usinas, de jornalistas, ONGs e políticos que se colocam
como “obstáculos” as obras. Fregapani é contratado pela empresa Sagres Consultoria, que por sua vez foi
contratada pela Camargo Corrêa para fazer esse trabalho de espionagem.”
A suspeita
Suspeitamos que este plano pode estar sendo proposto e coordenado pelas próprias empresas para colocar os
operários contra os atingidos. Se os indícios denunciados pelos meios de comunicação forem verdadeiros,
não nos surpreenderá se estes indivíduos contratados pelas empresas promoverem ataques ou sabotagens
contra os operários e colocarem a culpa nos atingidos, para jogar uns contra os outros ou criminalizar nossas
organizações e sindicatos.
Posição do MAB
O MAB é um movimento organizado, que luta em defesa das populações atingidas e, de acordo com
a relatora da ONU para os direitos humanos, Hina Jilani, “o MAB constitui benefício e acrescenta
valor à democracia brasileira ao desenvolver modos de ação social e participação”. No entanto, somos
cotidianamente atacados e vítimas de uma política de tratamento do setor elétrico que expulsa milhares de
famílias e nega nossos direitos.
As acusações do deputado Moreira Mendes são mentirosas e fazem parte de um plano de ações das
próprias empresas na tentativa de negação dos direitos, portanto alertamos que qualquer coisa que ocorrer
contra os atingidos ou os trabalhadores e operários que estão construindo a hidrelétrica de Jirau será de
responsabilidade das empresas donas da usina.
A luta dos atingidos é justa e continuaremos nossa mobilização pelos direitos dos atingidos fazendo
assembléias e reuniões com as comunidades, organizando o povo e lutando pela construção de um projeto
energético popular. Além disso, reforçamos nosso apoio aos trabalhadores da obra que vivem em condições
precárias de vida e de trabalho.
Por fim, conclamamos a todos a repudiarem este tipo de atitude, como a do deputado Moreira Mendes e de
espiões, e a manifestarem solidariedade aos atingidos por barragens e aos trabalhadores da usina.
Água e energia não são mercadorias!
Coordenação Nacional do MAB